terça-feira, 23 de setembro de 2014

AULA 1 - PERSÉPOLIS








     





         

  França - 2007
Dir. Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud.





PROTAGONISTAS



Marjane (com voz de Chiara Mastroianni, na versão original em francês)  Filha intelectuais  esquerdistas, Marji é uma garota iraniana, educada à moda européia. Desde criança demonstrava personalidade forte; depois adolescente revoltada, corajosa e desbocada. Estudou na  Europa. De volta para seu país, não sentia muita identificação com a sociedade local, apesar de amar seus parentes .



Mãe de Marjane (com voz de Catherine Deneuve, na versão original)Mulher de valores ocidentais, vê seu modo de vida transformado no regime dos aiatolás e revolta-se com isso.

Pai de Marjane (voz de Sean Penn, na versão americana): Intelectual de idéias modernas e família com tradição de militância em movimentos políticos que se opuseram tanto ao regime do xá como aos xiitas.


Avó de Marjane (voz de Gena Rowlands na versão americana) matriarca da família, fonte de humor e orientação moral para a pequena Marjane e também a encarnação do feminismo contido no filme.Para ela, a liberdade é um direito, por isso, desafia o mundo.




TRAMA E LINGUAGEM





Marjane Satrapi tinha nove anos quando seu país, o Irã, passou por uma revolução: o que era uma monarquia amiga do Ocidente virou uma república islâmica, regida por princípios religiosos bastante rigorosos e governada pelo aiatolá Khomeini, que fechou o país para o resto do mundo. Com a Guerra Irã-Iraque (1980 -88) é enviada, por seus pais, sozinha para estudar na Áustria.
É essa história bem pessoal, cheia de insegurança, saudade e solidão, que Marjane conta em "Persépolis", publicada no ano 2000 na forma de história em quadrinhos autobiográfica. O sucesso levou os quadrinhos às telas, numa animação produzida pela autora e pelo cineasta francês Vincent Paronnaud. Levou a Palma de Ouro em Cannes em 2007.


Os traços simples da animação ajudam a explicar, com uso de flashbacks e em preto-e-branco, a chamada Revolução Islâmica, que aconteceu há 37 anos e por que não é tão fácil a mudança para um país estranho, sem família, sem amigos, sem falar a língua.
Mesmo com o alívio de poder ir a festas, ouvir música alta e não precisar mais usar o véu obrigatório para cobrir a cabeça, a adolescente Marji se sente estranha diante de tantas pessoas que não entendem muito o que se passa no Irã. Apesar de tentar "pirar", experimentar drogas, sair com os mais doidos da escola e aproveitar a liberdade de ser uma teen, Marji nunca deixa de se sentir diferente, nunca esquece suas origens de enfrentamento político e indignação.
Assim, as mudanças da autora-personagem são um meio de contar a história da revolução e daquela garota, hoje com 45 anos, que questionou as convenções e conquistou o mundo.



UMA FALA DO FILME


Felizmente, no Liceu Francês de Viena eu conseguia entender os outros e ser entendida. Logo virei o centro das atenções dos marginais do Liceu. Minha nacionalidade e minha história o fascinavam Tinha visto uma revolução e uma guerra. E visto muita gente morta...Logo me integrei ao grupo...É verdade que no começo, foi meio difícil me adaptar. Mas depois de tudo, por que não?  Acabei me convencendo de que tinha achado o meu lugar entre os outros. Mas continuava sendo diferente deles. Certos aspectos da cultura ocidental continuavam misteriosos para mim.Era preciso que eu me instruísse. De Sartre a Bakunin, passando por Zweig e Freud, li tudo o que podia.  Mas entendi certas coisas que eu nunca entenderia. Eu estava muito confusa.Estava segura aqui, mas levava uma vida fútil enquanto os que eu amava viviam no inferno da Guerra. Por mais que eu tentasse, não me livrava do sentimento de culpa. Eu só queria viver como uma garota da minha idade.




UMA OPINIÃO

“Persépolis” é uma história simples contada de forma simples. Como nos quadrinhos de Marjane Satrapi, em que é baseado, o filme dirigido pela própria Satrapi e Vincent Paronnaud consiste essencialmente de uma série de desenhos em preto e branco, grossas linhas negras preenchidas por nuances de cinza.
Nesta era governada pela Pixar e por “Shrek”, é bom lembrar que as raízes da animação não estão numa técnica em particular, mas sim no impulso de dar vida a imagens estáticas. Mesmo com seu visual despretensioso, “Persépolis” é caloroso e surpreendente, com humor vivo e espírito independente. Seu retrato estilizado do mundo –- especialmente das ruas e prédios de Teerã e Viena –- transforma geografia em poesia.
Se “Persépolis” fosse baseado numa narrativa convencional em vez de uma história em quadrinhos, as memórias de juventude de Satrapi no Irã pré e pós revolucionário não seriam tão emocionantes e maravilhosas. Da mesma forma, se a adaptação cinematográfica fosse atuada de forma convencional, ela seria inevitavelmente menos mágica e real."



A.O. Scott , do New York Times( publicado em O Globo 28 de setembro 2007)


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

                                                 Aula 2 - Babel












México/França/EUA -  2006
Direção de Alejandro Iñarritu 


Drama sócio-político








     Protagonistas


Richard e Susan (Brad Pitt e Cate Blanchett): Casal americano em crise conjugal em viagem pelo Marrocos. O marido mostra-se muito dedicado e amoroso em meio à tragédia, que de certo modo os aproxima.

Ahmed e Youssef (Said Tarchani e Boubker At El Caid): pastores de cabras nas montanhas, são garotos comuns com interesses comuns para aquela idade (sexo e futebol, por exemplo). No começo escondem a responsabilidade pelo tiro mas depois assumem as consequências que os levam ao final trágico.

Amelia (Adriana Berraza): imigrante mexicana ilegal na Califórnia, trabalhava como babá dos filhos de Richard e Susan, quando ocorre o acidente. Tem uma ligação profunda com sua imensa família que estava do outro lado da fronteira. Apesar de cuidadosa, ela tem a má ideia de levar as crianças para o México.

Santiago (Gael Garcia Bernal): sobrinho de Amelia, faz o tipo malandro latino sem muita inteligência. Ao tentar fugir da polícia da fronteira com a tia e as crianças no carro, faz com que a mulher seja expulsa dos EUA.


Chieko (Rinko Kikuchi) Adolescente japonesa que vive em uma grande cidade com o pai, joga vôlei, sai com os amigos, mas é virgem e busca com ansiedade iniciar sua vida sexual. Apesar de bonita, ela é surda-muda e isso, em parte, dificulta suas intenções. 





 Trama e Linguagem


O filme mostra o desenrolar de quatro núcleos narrativos, a princípio distintos,  que ao final acabam por se relacionar de alguma maneira. As histórias ocorrem nas montanhas do Marrocos, na fronteira entre EUA-México em uma metrópole japonesa. Um “filme mosaico”, como se costuma dizer, em que cada sequência é uma peça do quebra cabeças, ficando plenamente compreensível somente nas últimas cenas, quando o círculo narrativo se fecha.





   O título remete a história da torre bíblica cuja construção foi impedida pelas desavenças entre os homens que falavam línguas diferentes. O filme é  falado em variados idiomas: inglês, francês, japonês, bérbere, árabe, língua japonesa de sinais e espanhol. Começando nos Estados Unidos, passando pelo Marrocos, México, Japão e regressando ao ponto de partida, Babel mostra-nos a vida e os dramas de quatro famílias; pessoas comuns, separadas por continentes, línguas e culturas mas unidas pelos acontecimentos. E nesse contexto, trata de temas contemporâneos importantes como o preconceito, a intolerância e a corrupção.

Núcleo 1 – Anwar e Yussef são dois garotos encarregados pelo pai de cuidar de suas cabras enquanto pastam-nas montanha; para se defenderem dos lobos, recebem um rifle. Quando treinavam tiro com a arma, um dos irmãos atinge um ônibus, ao longe na estrada, ferindo uma turista americana. O caso toma uma conotação de terrorismo islâmico e a polícia local é pressionada a investigar o caso, levando a um desfecho trágico.




Núcleo 2 – Um casal americano em crise conjugal faz uma viagem pelo deserto do Marrocos e a mulher é gravemente ferida por um tiro. O homem procura socorro para sua mulher, mas  são abandonados pelos próprios companheiros de excursão em uma pobre vila, perdida no meio do nada.
  



Núcleo 3 – Amélia cuida de 2 crianças, filhos de um casal(o mesmo do núcleo 2)  em viagem em San Diego, na Califórnia. Os patrões não voltavam de viagem e ela precisava ir ao México para o casamento da neta. Sem alternativa, ela leva as crianças e uma sucessão de problemas ocorrerão por causa dessa péssima ideia. 




Núcleo 4 – Apesar da deficiência auditiva, Chieko é uma adolescente que leva uma vida comum a qualquer garota da sua idade: pratica esportes, vai a barzinhos, sai com os amigos. Com os hormônios à flor  da pele, ela quer fazer sexo de qualquer maneira e se oferece a diversos homens que, no entanto, a rejeitam.


         Uma cena do filme


            No carro velho de seu sobrinho Santiago, Amélia atravessa a fronteira dos EUA com o México, trazendo também os filhos de seus patrões, Debbie e Mike.
            Santiago: É fácil entrar no paraíso.
            Debbie: Aqui é o México?
            Amélia: Sim, é o México.
            Mike: Mamãe disse que o México é muito perigoso!
            Santiago: É...é cheio de mexicanos!

            O carro segue pela periferia de Tijuana e as crianças veem da janela um mundo diferente em meio ao trânsito caótico, o comércio feito nas ruas, barracas de comidas estranhas, prostitutas e animais.




Uma opinião


Com personagens de etnias tão diversas e pelo título do filme fica fácil compreender a bandeira levantada por diretor e roteirista: o ataque ao preconceito e intolerância. Praticamente todos os problemas no filme decorrem de uma suposta tentativa de assassinato da personagem de Cate Blanchett, e que os Estados Unidos consideram um atentado terrorista. O bom roteiro de [Guillermo] Arriaga foca nos dramas pessoais de cada um de seus personagens, que apesar de serem esperados e nada originais não deixam de emocionar, e em determinados momentos causar revolta. Os diferentes idiomas falados são um símbolo para a falta de entendimento, as opiniões pré-concebidas e o fosso econômico e social que existe entre nações ricas e pobres. Este aspecto é ainda mais realçado pelo final do filme, quando os cidadãos de países desenvolvidos tomam caminhos diferentes daqueles dos países miseráveis.
(Fabio Nazaré, www.gaveteiro.com)