sexta-feira, 24 de outubro de 2014

                            AULA 8 - Central do Brasil














Brasil - 1998
Direção de Walter Saller Jr. - 113 min.






       Protagonistas

Dora (Fernanda Montenegro): é uma mulher que trabalha na estação Central do Brasil escrevendo cartas para pessoas analfabetas. A princípio demonstra ser uma pessoa sem muitos escrúpulos, caçoa do clientes e não envia as cartas. Passa por uma grande transformação pessoal em meio à viagem, tornando-se mais solidária, sensível e positiva.

Josué (Vinícius de Oliveira): abandonado pelo pai e órfão de mãe, se vê aos oito anos de idade, perdido no Rio de Janeiro e na dependência de Dora. Revoltado e questionador, tem muita dificuldade de se relacionar com a mulher, pelo menos até o meio da viagem.

Irene (Marília Pêra); vizinha de Dora e sua principal confidente. Presta todo o apoio necessário, às vezes mal sucedido, para a aventura da amiga. Representa o lado moral – quase sempre é contra as maldades da vizinha – e ligeiramente cômico da trama.  




Trama e Linguagem

O título do filme não se refere simplesmente ao local mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, onde acontece a maior parte da ação nos primeiros 25 minutos, mais também ao próprio Brasil, naquilo que apresenta de mais original em seu povo, em sua cultura e em suas paisagens.     
Narra a história de Dora, uma camelô de mais de sessenta anos, sem muita esperança na vida, dinheiro ou ética, lutando para sobreviver no “Brasil Real”, lendo e escrevendo cartas para as pessoas na Central do Brasil, uma imensa estação de trens metropolitanos na região central do Rio de Janeiro, por onde se passam milhões de pessoas todos os dias. Ela acolhe um órfão perdido e após se arrepender de vendê-lo a uma quadrilha de tráfico de órgãos, foge com o garoto para o sertão nordestino, em busca de seu pai. Na jornada, a dupla cruza o caminho de uma série de personagens e histórias, que levam Dora a uma viagem interior, em busca da redenção pessoal.  



Neste Brasil que Walter Salles quer mostrar, aparecem imagens típicas  do País, sujeitos sociais, também presentes em diversas outras produções cinematográficas e literárias: o sertanejo, a mãe solteira, os migrantes que saem de várias partes do país em direção ao eixo Rio-São Paulo, os romeiros que vivem na estrada, guiados pela fé em Deus e no Bom Jesus. Um balanço honesto dos tipos humanos que circulam pela história pode concluir que ali estão representações conhecidas e reconhecíveis, personagens já consagrados pelas várias narrativas que temos da nação brasileira.
É um filme muito sensível, com a atuação brilhante de Fernanda Montenegro, que fez dela a única brasileira a ser indicada ao Oscar de melhor atriz até hoje. O filme fez muito sucesso no mundo todo e projetou a carreira internacional de Walter Sales Jr. Como os demais, este filme também faz uma reflexão sobre o Brasil dando vez e voz aos que não costumam ser os protagonistas dos filmes.



Uma cena do filme

A cena da iluminação (1h.10min.)
É um momento decisivo do filme, que da  início à redenção de Dora. Após atravessar o país levando o garoto como um fardo e de tentativas fracassadas de encontrar o pai do menino, ela descarrega toda a sua raiva e ele foge, em meio uma enorme procissão noturna, em que milhares de fiéis trazem velas acesas. A cena é longa e angustiante e mostra detidamente as manifestações de fé. Ao entrar na sala de devoções, em meio aos ex-votos (pernas, braços, mãos e outras partes do corpo feitas em cera ou madeira), fotografias, objetos todo tipo, velas e lamparinas, Dora desmaia e é socorrida por Josué. No dia seguinte, a mulher se emociona com o carinho e a atenção manifestados pelo garoto.     





Uma opinião

Os personagens se dividem em pobres (a escrevinhadora Dora, a prostituta Irene, o segurança Pedrão, o caminhoneiro César) e miseráveis (o órfão Josué, os analfabetos que recorrem a Dora, os romeiros do sertão). Pode-se explicar esse recorte de várias maneiras: 1) a trama não comportava personagens de outras classes sociais; b) os pobres são mais adequados a um melodrama social; c) eles compõem a esmagadora maioria existente na sociedade brasileira.
Mais que isso tudo, há a opção do próprio diretor de chamar a atenção para o que ele julga mais importante no Brasil de hoje: a exclusão social. A figura do analfabeto sintetiza como nenhuma outra a ideia do indivíduo privado não só dos bens materiais, mas também do conhecimento e da comunicação. É alguém sem vez e sem voz no alegre mundo do consumo globalizado.
(José Geraldo Couto, Folha de SP 24 de outubro de 1998)


                            Aula 7 - Tropa de Elite 2                                    O Inimigo Agora é Outro

















Brasil – 2010
Direção: José Padilha – 115 min.

        
   




            Protagonistas

           
Roberto Nascimento (Wagner Moura): antes capitão e atual coronel da Polícia Militar do RJ, agora tem lidar com problemas de relação como filho adolescente, a ex-mulher e com as milícias que dominam o crime organizado no estado. Como no filme, continua objetivo, coerente, solidário e avesso aos intelectuais ligados aos direitos humanos. Ocupando um cargo na inteligência da PM, tenta combater a corrupção policial dentro do sistema.
           
André Mathias (André Ramiro): aquele que havia sido preparado como sucessor de Nascimento,mas acusado de responsável pelo massacre de detentos de Bangu 1, é preso e expulso do Bope (Batalhão de Operações Especiais).

Rosane (Maria Flor): Ex-mulher de Nascimento e agora casada com Fraga, é mais um elemento de desequilíbrio para o coronel, sempre tomando partido contra ele.

Diogo Fraga (Irandhir Santos): deputado esquerdista, inimigo do sistema carcerário, da violência e da corrupção policial. Principal antagonista de Nascimento, vê-se obrigado a unir-se ao seu rival contra um inimigo comum. 




Trama e Linguagem

Na onda da popularização de franquias nacionais de sucesso (Se eu Fosse Você, De Pernas Para o Ar, entre outros), Tropa de Elite 2 foi o mais bem sucedido, levando mais de11milhões de espectadores aos cinemas em 2010 e se tornando o filme de maior bilheteria da história do cinema brasileiro. Treze anos depois do final do primeiro filme, o enredo da sequência ocorre num momento em que o Coronel Nascimento é nomeado para um cargo de cargo de importância dentro do serviço de informação da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Nos meandros da política ele percebe que é aí que reside o principal problema, e não dentro das favelas.






Uma vez na Secretaria, Nascimento tentou articular uma completa reestruturação do BOPE, aumentando seu efetivo e modernizando seus equipamentos. Essa reestruturação o auxilia no combate ao tráfico de entorpecentes, e, com o passar do tempo, a Secretaria é capaz de encerrar as atividades de traficantes na maior parte das favelas da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Desbaratar o crime organizado, ao contrário do que Nascimento planejara, não contribuiu para a diminuição da corrupção, mas fez surgir uma nova organização criminosa, comandada por policiais e políticos corruptos. Em meio a isso, Nascimento ainda tem que administrar sua vida pessoal, que envolve suas relações com o filho de 15 anos e com sua ex-mulher Rosane
que agora está casada com o ativista de esquerda – personagem baseado no real deputado Marcelo Freixo, do PSOL – Diogo Fraga, que combate a violência policial.
  No filme é retratada a ascensão de um policial militar corrupto, Rocha (o ator Sandro Rocha), major do batalhão de Fábio (o ator Milhem Cortaz). Rocha percebe que, ao eliminar a figura do traficante, ele não estaria deixando de receber a propina que vinha recebendo, mas sim poderia passar a controlar diretamente a comunidade, eliminando assim o intermediário e tendo lucros maiores. Assim, ele e seu grupo passam a comandar uma comunidade, não sem coagir o já corrupto Fábio a cooptar com eles. É o contexto do surgimento das milícias que passam a controlar o crime organizado no Rio de Janeiro. Este é o novo inimigo ao qual o subtítulo do filme se refere. 




Uma cena do filme

A narrativa em off feita pelo Coronel Nascimento, com cenas internas do presídio: 
Bangu 1. É lá que iam parar os chefões do tráfico. Os caras que a polícia pegava e não executava, porque eles tinham grana para perder. Cada comando ficava em uma área isolada. Se deixasse misturar os vagabundos se matavam. Sabes o que eles faziam lá dentro? O mesmo que faziam aqui fora. Viviam em guerra, disputando o controle do tráfico na cidade. Por mim, o certo era fechara porta, jogar a chave fora e deixar os caras se trucidarem lá dentro. Só que tem muito intelectualzinho de esquerda que ganha a vida defendendo vagabundo.

(corta para a imagem de Diego Fraga dando uma palestra)

Fraga – O mais insano é o que a gente vem discutindo: prisão hoje é um lugar extremamente caro para tornar as pessoas piores... Só para que vocês tenham uma ideia, em 1996 a população carcerária brasileira era de148 mil presos. Hoje, dez anos depois, a população carcerária é de mais de 400 mil presos. É mais que o dobro, é quase o triplo. Eu fiz uma conta perversa: eu percebi que a população carcerária brasileira dobra, em média, a cada quatro anos, enquanto que a população brasileira dobra a cada cinquenta anos. Se continuarmos com isso aqui, em 2081 a população brasileira será de 570 milhões...seus filhos, seus netos, seus bisnetos. Enquanto que a população carcerária brasileira será de 510 milhões... seus filhos, seus netos, seus bisnetos. Ou seja, 90% dos brasileiros vão estar na cadeia. 

(confira no link abaixo o começo do filme e a cena acima,aos 6 minutos)

            Uma opinião

Quando Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro começa, a seguinte frase surge na tela: “Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Essa é uma obra de ficção”. Não, caro leitor. Sua história põe o dedo na ferida, mostra que os problemas sociais vão muito além do bandidinho da esquina e que os principais culpados pela existência de políticos corruptos, policiais inescrupulosos e traficantes é, principalmente, nossa. A espetacular equipe formada pelo cineasta José Padilha, o roteirista Bráulio Mantovani e o excelente elenco encabeçado por Moura realizou uma obra mais densa, até triste. Sem o apelo pop do original, porém mais complexa, completa, coesa. Agora, o buraco é bem mais em cima. Conforme diz o subtítulo, o inimigo não apenas empunha armas, mas usa terno, gravata e quer ser (re) eleito.
Muito além de uma pérola do cinema brasileiro, “Tropa de Elite 2” é, antes de tudo, um fenômeno social, popular e político. Uma denúncia. Obra que não tem medo de jogar lixo no ventilador. Que não teme afirmar que o governador do Rio está envolvido na barbárie, que a PM daquele estado precisa ser reformada, e que a mídia faz uso do crime não somente para ganhar audiência, mas também conseguir poder político.  Assim, confirmamos que, ao contrário da frase que abre o filme, Tropa de Elite 2 não só aproxima-se, mas reafirma a realidade onde vivemos – principalmente depois das eleições. Não é mera coincidência.
(André Azenha, Revista O Grito, outubro/2010)