sexta-feira, 24 de outubro de 2014

                            Aula 7 - Tropa de Elite 2                                    O Inimigo Agora é Outro

















Brasil – 2010
Direção: José Padilha – 115 min.

        
   




            Protagonistas

           
Roberto Nascimento (Wagner Moura): antes capitão e atual coronel da Polícia Militar do RJ, agora tem lidar com problemas de relação como filho adolescente, a ex-mulher e com as milícias que dominam o crime organizado no estado. Como no filme, continua objetivo, coerente, solidário e avesso aos intelectuais ligados aos direitos humanos. Ocupando um cargo na inteligência da PM, tenta combater a corrupção policial dentro do sistema.
           
André Mathias (André Ramiro): aquele que havia sido preparado como sucessor de Nascimento,mas acusado de responsável pelo massacre de detentos de Bangu 1, é preso e expulso do Bope (Batalhão de Operações Especiais).

Rosane (Maria Flor): Ex-mulher de Nascimento e agora casada com Fraga, é mais um elemento de desequilíbrio para o coronel, sempre tomando partido contra ele.

Diogo Fraga (Irandhir Santos): deputado esquerdista, inimigo do sistema carcerário, da violência e da corrupção policial. Principal antagonista de Nascimento, vê-se obrigado a unir-se ao seu rival contra um inimigo comum. 




Trama e Linguagem

Na onda da popularização de franquias nacionais de sucesso (Se eu Fosse Você, De Pernas Para o Ar, entre outros), Tropa de Elite 2 foi o mais bem sucedido, levando mais de11milhões de espectadores aos cinemas em 2010 e se tornando o filme de maior bilheteria da história do cinema brasileiro. Treze anos depois do final do primeiro filme, o enredo da sequência ocorre num momento em que o Coronel Nascimento é nomeado para um cargo de cargo de importância dentro do serviço de informação da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Nos meandros da política ele percebe que é aí que reside o principal problema, e não dentro das favelas.






Uma vez na Secretaria, Nascimento tentou articular uma completa reestruturação do BOPE, aumentando seu efetivo e modernizando seus equipamentos. Essa reestruturação o auxilia no combate ao tráfico de entorpecentes, e, com o passar do tempo, a Secretaria é capaz de encerrar as atividades de traficantes na maior parte das favelas da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Desbaratar o crime organizado, ao contrário do que Nascimento planejara, não contribuiu para a diminuição da corrupção, mas fez surgir uma nova organização criminosa, comandada por policiais e políticos corruptos. Em meio a isso, Nascimento ainda tem que administrar sua vida pessoal, que envolve suas relações com o filho de 15 anos e com sua ex-mulher Rosane
que agora está casada com o ativista de esquerda – personagem baseado no real deputado Marcelo Freixo, do PSOL – Diogo Fraga, que combate a violência policial.
  No filme é retratada a ascensão de um policial militar corrupto, Rocha (o ator Sandro Rocha), major do batalhão de Fábio (o ator Milhem Cortaz). Rocha percebe que, ao eliminar a figura do traficante, ele não estaria deixando de receber a propina que vinha recebendo, mas sim poderia passar a controlar diretamente a comunidade, eliminando assim o intermediário e tendo lucros maiores. Assim, ele e seu grupo passam a comandar uma comunidade, não sem coagir o já corrupto Fábio a cooptar com eles. É o contexto do surgimento das milícias que passam a controlar o crime organizado no Rio de Janeiro. Este é o novo inimigo ao qual o subtítulo do filme se refere. 




Uma cena do filme

A narrativa em off feita pelo Coronel Nascimento, com cenas internas do presídio: 
Bangu 1. É lá que iam parar os chefões do tráfico. Os caras que a polícia pegava e não executava, porque eles tinham grana para perder. Cada comando ficava em uma área isolada. Se deixasse misturar os vagabundos se matavam. Sabes o que eles faziam lá dentro? O mesmo que faziam aqui fora. Viviam em guerra, disputando o controle do tráfico na cidade. Por mim, o certo era fechara porta, jogar a chave fora e deixar os caras se trucidarem lá dentro. Só que tem muito intelectualzinho de esquerda que ganha a vida defendendo vagabundo.

(corta para a imagem de Diego Fraga dando uma palestra)

Fraga – O mais insano é o que a gente vem discutindo: prisão hoje é um lugar extremamente caro para tornar as pessoas piores... Só para que vocês tenham uma ideia, em 1996 a população carcerária brasileira era de148 mil presos. Hoje, dez anos depois, a população carcerária é de mais de 400 mil presos. É mais que o dobro, é quase o triplo. Eu fiz uma conta perversa: eu percebi que a população carcerária brasileira dobra, em média, a cada quatro anos, enquanto que a população brasileira dobra a cada cinquenta anos. Se continuarmos com isso aqui, em 2081 a população brasileira será de 570 milhões...seus filhos, seus netos, seus bisnetos. Enquanto que a população carcerária brasileira será de 510 milhões... seus filhos, seus netos, seus bisnetos. Ou seja, 90% dos brasileiros vão estar na cadeia. 

(confira no link abaixo o começo do filme e a cena acima,aos 6 minutos)

            Uma opinião

Quando Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro começa, a seguinte frase surge na tela: “Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Essa é uma obra de ficção”. Não, caro leitor. Sua história põe o dedo na ferida, mostra que os problemas sociais vão muito além do bandidinho da esquina e que os principais culpados pela existência de políticos corruptos, policiais inescrupulosos e traficantes é, principalmente, nossa. A espetacular equipe formada pelo cineasta José Padilha, o roteirista Bráulio Mantovani e o excelente elenco encabeçado por Moura realizou uma obra mais densa, até triste. Sem o apelo pop do original, porém mais complexa, completa, coesa. Agora, o buraco é bem mais em cima. Conforme diz o subtítulo, o inimigo não apenas empunha armas, mas usa terno, gravata e quer ser (re) eleito.
Muito além de uma pérola do cinema brasileiro, “Tropa de Elite 2” é, antes de tudo, um fenômeno social, popular e político. Uma denúncia. Obra que não tem medo de jogar lixo no ventilador. Que não teme afirmar que o governador do Rio está envolvido na barbárie, que a PM daquele estado precisa ser reformada, e que a mídia faz uso do crime não somente para ganhar audiência, mas também conseguir poder político.  Assim, confirmamos que, ao contrário da frase que abre o filme, Tropa de Elite 2 não só aproxima-se, mas reafirma a realidade onde vivemos – principalmente depois das eleições. Não é mera coincidência.
(André Azenha, Revista O Grito, outubro/2010)


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