Brasil – 2010
Direção: José
Padilha – 115 min.
Protagonistas
Rosane (Maria Flor): Ex-mulher de Nascimento e agora casada com Fraga, é mais um elemento de desequilíbrio para o coronel, sempre tomando partido contra ele.
Trama e Linguagem
Na onda da popularização de franquias
nacionais de sucesso (Se eu Fosse Você,
De Pernas Para o Ar, entre outros), Tropa de Elite 2 foi o mais bem
sucedido, levando mais de11milhões de espectadores aos cinemas em 2010 e se
tornando o filme de maior bilheteria da história do cinema brasileiro. Treze anos depois do final do primeiro filme, o enredo
da sequência ocorre num momento em que o Coronel Nascimento é nomeado para um
cargo de cargo de importância dentro do serviço de informação da Secretaria de
Segurança Pública do Rio de Janeiro. Nos meandros da política ele percebe que é
aí que reside o principal problema, e não dentro das favelas.
Uma vez na Secretaria,
Nascimento tentou articular uma completa reestruturação do BOPE, aumentando seu
efetivo e modernizando seus equipamentos. Essa reestruturação o auxilia no
combate ao tráfico de entorpecentes, e, com o passar do tempo, a Secretaria é
capaz de encerrar as atividades de traficantes na maior parte das favelas da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Desbaratar o crime organizado, ao contrário do que
Nascimento planejara, não contribuiu para a diminuição da corrupção, mas fez
surgir uma nova organização criminosa, comandada
por policiais e políticos corruptos. Em meio a isso, Nascimento
ainda tem que administrar sua vida pessoal, que envolve suas relações com o
filho de 15 anos e com sua ex-mulher Rosane
que agora está casada com o ativista de
esquerda – personagem baseado no real deputado Marcelo Freixo, do PSOL – Diogo
Fraga, que combate a violência policial.
No filme é retratada a ascensão de um
policial militar corrupto, Rocha (o ator Sandro Rocha), major do batalhão de
Fábio (o ator Milhem Cortaz). Rocha percebe que, ao eliminar a figura do
traficante, ele não estaria deixando de receber a propina que vinha recebendo,
mas sim poderia passar a controlar diretamente a comunidade, eliminando assim o
intermediário e tendo lucros maiores. Assim, ele e seu grupo passam a comandar
uma comunidade, não sem coagir o já corrupto Fábio a cooptar com eles. É o
contexto do surgimento das milícias que passam a controlar o crime organizado
no Rio de Janeiro. Este é o novo inimigo ao qual o subtítulo do filme se
refere.
A narrativa em off feita
pelo Coronel Nascimento, com cenas internas do presídio:
Bangu 1. É lá que iam parar os chefões do tráfico. Os
caras que a polícia pegava e não executava, porque eles tinham grana para
perder. Cada comando ficava em uma área isolada. Se deixasse misturar os
vagabundos se matavam. Sabes o que eles faziam lá dentro? O mesmo que faziam
aqui fora. Viviam em guerra, disputando o controle do tráfico na cidade. Por
mim, o certo era fechara porta, jogar a chave fora e deixar os caras se
trucidarem lá dentro. Só que tem muito intelectualzinho de esquerda que ganha a
vida defendendo vagabundo.
(corta para a imagem de
Diego Fraga dando uma palestra)
Fraga – O mais insano é o que a gente vem discutindo: prisão hoje é um lugar
extremamente caro para tornar as pessoas piores... Só para que vocês tenham uma
ideia, em 1996 a população carcerária brasileira era de148 mil presos. Hoje,
dez anos depois, a população carcerária é de mais de 400 mil presos. É mais que
o dobro, é quase o triplo. Eu fiz uma conta perversa: eu percebi que a
população carcerária brasileira dobra, em média, a cada quatro anos, enquanto
que a população brasileira dobra a cada cinquenta anos. Se continuarmos com
isso aqui, em 2081 a população brasileira será de 570 milhões...seus filhos,
seus netos, seus bisnetos. Enquanto que a população carcerária brasileira será de
510 milhões... seus filhos, seus netos, seus bisnetos. Ou seja, 90% dos
brasileiros vão estar na cadeia.
(confira no link abaixo o começo do filme e a cena acima,aos 6 minutos)
Uma
opinião
Quando Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro começa,
a seguinte frase surge na tela: “Qualquer semelhança com a realidade é mera
coincidência. Essa é uma obra de ficção”. Não, caro leitor. Sua história põe o
dedo na ferida, mostra que os problemas sociais vão muito além do bandidinho da
esquina e que os principais culpados pela existência de políticos corruptos,
policiais inescrupulosos e traficantes é, principalmente, nossa. A espetacular equipe formada pelo cineasta José
Padilha, o roteirista Bráulio Mantovani e o excelente elenco
encabeçado por Moura realizou uma obra mais densa, até triste. Sem o apelo pop
do original, porém mais complexa, completa, coesa. Agora, o buraco é bem mais
em cima. Conforme diz o subtítulo, o inimigo não apenas empunha armas, mas usa
terno, gravata e quer ser (re) eleito.
Muito
além de uma pérola do cinema brasileiro, “Tropa de Elite 2” é, antes de tudo,
um fenômeno social, popular e político. Uma denúncia. Obra que não tem medo de
jogar lixo no ventilador. Que não teme afirmar que o governador do Rio está
envolvido na barbárie, que a PM daquele estado precisa ser reformada, e que a
mídia faz uso do crime não somente para ganhar audiência, mas também conseguir
poder político. Assim, confirmamos que, ao contrário da frase que abre o
filme, Tropa de Elite 2 não só aproxima-se, mas reafirma a
realidade onde vivemos – principalmente depois das eleições. Não é mera
coincidência.
(André
Azenha, Revista O Grito, outubro/2010)







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