AULA 8 - Central do Brasil
Brasil - 1998
Direção de Walter
Saller Jr. - 113 min.
Protagonistas
Dora (Fernanda Montenegro): é uma mulher que trabalha na
estação Central do Brasil escrevendo cartas para pessoas analfabetas. A
princípio demonstra ser uma pessoa sem muitos escrúpulos, caçoa do clientes e
não envia as cartas. Passa por uma grande transformação pessoal em meio à
viagem, tornando-se mais solidária, sensível e positiva.
Josué (Vinícius de Oliveira): abandonado
pelo pai e órfão de mãe, se vê aos oito anos de idade, perdido no Rio de
Janeiro e na dependência de Dora. Revoltado e questionador, tem muita
dificuldade de se relacionar com a mulher, pelo menos até o meio da viagem.
Irene (Marília Pêra); vizinha de Dora e sua
principal confidente. Presta todo o apoio necessário, às vezes mal sucedido,
para a aventura da amiga. Representa o lado moral – quase sempre é contra as
maldades da vizinha – e ligeiramente cômico da trama.
Trama e Linguagem
O
título do filme não se refere simplesmente ao local mais movimentado da cidade
do Rio de Janeiro, onde acontece a maior parte da ação nos primeiros 25 minutos,
mais também ao próprio Brasil, naquilo que apresenta de mais original em seu povo,
em sua cultura e em suas paisagens.
Narra
a história de Dora, uma camelô de mais de sessenta anos, sem muita esperança na
vida, dinheiro ou ética, lutando para sobreviver no “Brasil Real”, lendo e
escrevendo cartas para as pessoas na Central do Brasil, uma imensa estação de
trens metropolitanos na região central do Rio de Janeiro, por onde se passam milhões
de pessoas todos os dias. Ela acolhe um órfão perdido e após se arrepender de
vendê-lo a uma quadrilha de tráfico de órgãos, foge com o garoto para o sertão
nordestino, em busca de seu pai. Na jornada, a dupla cruza o caminho de uma série
de personagens e histórias, que levam Dora a uma viagem interior, em busca da
redenção pessoal.
Neste
Brasil que Walter Salles quer mostrar, aparecem imagens típicas do País, sujeitos sociais, também presentes em
diversas outras produções cinematográficas e literárias: o sertanejo, a mãe
solteira, os migrantes que saem de várias partes do país em direção ao eixo
Rio-São Paulo, os romeiros que vivem na estrada, guiados pela fé em Deus e no
Bom Jesus. Um balanço honesto dos tipos humanos que circulam pela história pode
concluir que ali estão representações conhecidas e reconhecíveis, personagens
já consagrados pelas várias narrativas que temos da nação brasileira.
É
um filme muito sensível, com a atuação brilhante de Fernanda Montenegro, que
fez dela a única brasileira a ser indicada ao Oscar de melhor atriz até hoje. O
filme fez muito sucesso no mundo todo e projetou a carreira internacional de
Walter Sales Jr. Como os demais, este filme também faz uma reflexão sobre o
Brasil dando vez e voz aos que não costumam ser os protagonistas dos filmes.
Uma cena do filme
A cena da
iluminação (1h.10min.)
É um momento
decisivo do filme, que da início à redenção
de Dora. Após atravessar o país levando o garoto como um fardo e de tentativas fracassadas
de encontrar o pai do menino, ela descarrega toda a sua raiva e ele foge, em
meio uma enorme procissão noturna, em que milhares de fiéis trazem velas acesas.
A cena é longa e angustiante e mostra detidamente as manifestações de fé. Ao entrar
na sala de devoções, em meio aos ex-votos (pernas, braços, mãos e outras partes
do corpo feitas em cera ou madeira), fotografias, objetos todo tipo, velas e
lamparinas, Dora desmaia e é socorrida por Josué. No dia seguinte, a mulher se
emociona com o carinho e a atenção manifestados pelo garoto.
Uma opinião
Os personagens se dividem em pobres (a
escrevinhadora Dora, a prostituta Irene, o segurança Pedrão, o caminhoneiro
César) e miseráveis (o órfão Josué, os analfabetos que recorrem a Dora, os
romeiros do sertão). Pode-se explicar esse recorte de várias maneiras: 1) a
trama não comportava personagens de outras classes sociais; b) os pobres são
mais adequados a um melodrama social; c) eles compõem a esmagadora maioria
existente na sociedade brasileira.
Mais que isso tudo, há a opção do próprio diretor de chamar a atenção para o que ele julga mais importante no Brasil de hoje: a exclusão social. A figura do analfabeto sintetiza como nenhuma outra a ideia do indivíduo privado não só dos bens materiais, mas também do conhecimento e da comunicação. É alguém sem vez e sem voz no alegre mundo do consumo globalizado.
Mais que isso tudo, há a opção do próprio diretor de chamar a atenção para o que ele julga mais importante no Brasil de hoje: a exclusão social. A figura do analfabeto sintetiza como nenhuma outra a ideia do indivíduo privado não só dos bens materiais, mas também do conhecimento e da comunicação. É alguém sem vez e sem voz no alegre mundo do consumo globalizado.
(José Geraldo
Couto, Folha de SP 24 de outubro de 1998)

























