quarta-feira, 15 de outubro de 2014

          AULA 5 - Cabra Marcado para Morrer





















Brasil -1987
Direção de Eduardo Coutinho - 119 min.






O Diretor 

Eduardo Coutinho (1933 – 2014), um dos mais importantes nomes do documentário brasileiro, teve uma formação que passou pelo cinema, teatro e jornalismo, tendo inclusive cursado a faculdade de Direito em SP. Seu trabalho é
caracterizado pela profundidade e sensibilidade com que aborda problemas e aspirações da grande maioria marginalizada, seja em favelas, no sertão ou na boca do lixo. Dentre seus principais filmes estão Santo Forte (1999), Edifício Master (2002) e Jogo de Cena (2007). Morreu tragicamente em fevereiro de 2014, assassinato a facadas pelo próprio filho.


Trama e Linguagem

Coutinho nasceu em São Paulo e chegou a estudar na faculdade de Direito do largo S.Francisco, nos anos 50 mas não concluiu, ligando-se ao teatro e ao cinema ainda na juventude. Na década seguinte, integrou-se ao Centro Popular de Cultura da União dos Estudantes e começou a trabalhar no projeto que seria "Cabra Marcado Para Morrer".
Quando o projeto começou, no início dos anos 1960, pensava-se numa obra de ficção, em que camponeses reencenariam uma história real, a do líder camponês João Pedro Teixeira, fundador da Liga Camponesa de Sapé (PB), assassinado a mando de latifundiários em 1962. O elenco seria composto por atores amadores, habitantes daquela comunidade e a viúva de Teixeira, Elisabete, seria interpretada por ela mesma. 



Quando finalmente o cineasta conseguiu os recursos para a filmagem, produzida pelo Centro Popular de Cultura da UNE e o Movimento de Cultura Popular (PE), já era 1964. No meio das gravações, o projeto foi interrompido pela ditadura. Imagens e câmeras foram perdidas, membros da equipe foram presos ou tiveram de fugir, mas uma parte do material filmado foi preservado.
Forçado a abandonar o projeto, Coutinho passou a integrar a equipe do programa "Globo Repórter", da Rede Globo. Lá descobriu a vocação para o documentário, deixando para trás os filmes de ficção que, anos depois, renegou como parte desinteressante de sua filmografia.
Nos anos 1980, após a abertura política, Coutinho retomou o projeto de "Cabra Marcado para Morrer", combinando diferentes tempos narrativos: as imagens restantes do filme inicial de 1964 e novas gravações com os personagens, que reencontrou anos depois. O resultado foi um dos melhores e mais importantes documentários da história do País.

Este filme foi realizado em dois momento distintos. A primeira parte, com imagens ainda em preto e branco, começou a ser feita em 1964, quando através de depoimentos o diretor queria contar a história de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas, assassinado dois anos antes.
Em meio às filmagens, ocorreu o golpe militar de março de 1964 e o início da ditadura. Forças policiais cercaram a vila de Sepé (PB) e prenderam toda a equipe de filmagens. Coutinho foi acusado de comunismo e teve de interromper o projeto por mais de vinte anos. Em 1986, voltou ao sertão nordestino e localizou diversos depoentes na primeira do filme, inclusive a a viúva do líder camponês que tinha vivido na clandestinidade durante o Regime Militar (1964-85). Nas duas partes, a questão da terra e a pobreza dos sertanejos nordestinos são os principais temas da obra.





Uma fala do filme

Mostrando as imagens da década de 60, o diretor narra como surgiu a ideia para o seu documentário:

(clique  acima e assista os primeiros minutos do filme,que contém a fala citada). 

Aumento do foro (aluguel), trabalho obrigatório e sem pagamento, despejo sem indenização pelas benfeitorias e lavouras, uso da violênciapelosgrandes proprietários de terras.Nalutacontra tudo isso JoãoPedro forjou a unidade dos camponeses da região. Foi nesse dia que nasceu a ideia de umfilmedelonga-metragem sobrea vida de João Pedro Teixeira que se chamaria “Cabra Marcado para Morrer”. Produzido pelo CPC-UNE e pelo Movimento de Cultura Popular de Pernambuco, o filme seria realizado nos próprios onde a história havia ocorrido. Dois anos depois estava tudo pronto para o início das filmagens... Ma sem 15 de janeiro de 1964 houve um conflito perto de Sapé envolvendo policiais e empregados de uma usina, de um lado e camponeses, do outro. Onze pessoas morreram no conflito. A região foi tomada pela Polícia Militar da Paraíba, tornando impossível a filmagem no local. Na emergência fui obrigado a transferir as locações e encontrei o lugar ideal em Pernambuco, no Engenho Galileia, onde havia nascido a primeira Liga Camponesa, em1955.



Uma Opinião:

Talvez esse tipo de procedimento (de o diretor conduzir a trama do documentário através das entrevistas) tenha começado em "Cabra Marcado para Morrer", quando o cineasta retorna, em 1981, à cidadezinha que tivera de abandonar às pressas em 1964, quando realizava um filme sobre as Ligas Camponesas. Ali é essencial o contato com as pessoas, a maneira como aos poucos se retoma a confiança de pessoas perseguidas durante a ditadura. É essencial, mas não é central. Central é o tempo, as mudanças que afetaram essas pessoas e o vilarejo quase fantasma, onde em outros tempos se forjava a rebelião camponesa. Isto é que o filme consegue captar: a passagem do tempo, seus traços marcados nos rostos, nas atitudes, no próprio medo.

(Jean-Claude Bernadet, Folha Conta 100 Anos de Cinema, ed. Imago -1995)

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