AULA 5 - Cabra Marcado para Morrer
Brasil -1987
Direção
de Eduardo Coutinho - 119 min.
O Diretor
Eduardo
Coutinho (1933 – 2014), um dos mais importantes nomes do documentário
brasileiro, teve uma formação que passou pelo cinema, teatro e jornalismo,
tendo inclusive cursado a faculdade de Direito em SP. Seu trabalho é
caracterizado pela profundidade e sensibilidade com que aborda problemas e
aspirações da grande maioria marginalizada, seja em favelas, no sertão ou na
boca do lixo. Dentre seus principais filmes estão Santo Forte (1999), Edifício
Master (2002) e Jogo de Cena (2007). Morreu tragicamente em fevereiro de 2014,
assassinato a facadas pelo próprio filho.
Trama e Linguagem
Coutinho nasceu em São Paulo e chegou a
estudar na faculdade de Direito do largo S.Francisco, nos anos 50 mas não
concluiu, ligando-se ao teatro e ao cinema ainda na juventude. Na década seguinte,
integrou-se ao Centro Popular de Cultura da União dos Estudantes e começou a
trabalhar no projeto que seria "Cabra Marcado Para Morrer".
Quando o projeto começou, no início dos anos
1960, pensava-se numa obra de ficção, em que camponeses reencenariam uma
história real, a do líder camponês João Pedro Teixeira, fundador da Liga
Camponesa de Sapé (PB), assassinado a mando de latifundiários em 1962. O elenco
seria composto por atores amadores, habitantes daquela comunidade e a viúva de
Teixeira, Elisabete, seria interpretada por ela mesma.
Quando finalmente o cineasta conseguiu os
recursos para a filmagem, produzida pelo Centro Popular de Cultura da UNE e o
Movimento de Cultura Popular (PE), já era 1964. No meio das gravações, o
projeto foi interrompido pela ditadura. Imagens e câmeras foram perdidas,
membros da equipe foram presos ou tiveram de fugir, mas uma parte do material
filmado foi preservado.
Forçado a abandonar o projeto, Coutinho
passou a integrar a equipe do programa "Globo Repórter", da Rede
Globo. Lá descobriu a vocação para o documentário, deixando para trás os filmes
de ficção que, anos depois, renegou como parte desinteressante de sua
filmografia.
Nos anos 1980, após a abertura política,
Coutinho retomou o projeto de "Cabra Marcado para Morrer", combinando
diferentes tempos narrativos: as imagens restantes do filme inicial de 1964 e
novas gravações com os personagens, que reencontrou anos depois. O resultado
foi um dos melhores e mais importantes documentários da história do País.
Este filme
foi realizado em dois momento distintos. A primeira parte, com imagens ainda em
preto e branco, começou a ser feita em 1964, quando através de depoimentos o
diretor queria contar a história de João Pedro Teixeira, líder das Ligas
Camponesas, assassinado dois anos antes.
Em meio às
filmagens, ocorreu o golpe militar de março de 1964 e o início da ditadura.
Forças policiais cercaram a vila de Sepé (PB) e prenderam toda a equipe de
filmagens. Coutinho foi acusado de comunismo e teve de interromper o projeto
por mais de vinte anos. Em 1986, voltou ao sertão nordestino e localizou
diversos depoentes na primeira do filme, inclusive a a viúva do líder camponês
que tinha vivido na clandestinidade durante o Regime Militar (1964-85). Nas
duas partes, a questão da terra e a pobreza dos sertanejos nordestinos são os
principais temas da obra.
Uma fala do filme
Mostrando as imagens da década de 60, o diretor narra
como surgiu a ideia para o seu documentário:
(clique acima e assista os primeiros minutos do filme,que contém a fala citada).
Aumento do foro
(aluguel), trabalho obrigatório e sem pagamento, despejo sem indenização pelas
benfeitorias e lavouras, uso da violênciapelosgrandes proprietários de
terras.Nalutacontra tudo isso JoãoPedro forjou a unidade dos camponeses da
região. Foi nesse dia que nasceu a ideia de umfilmedelonga-metragem sobrea vida
de João Pedro Teixeira que se chamaria “Cabra Marcado para
Morrer”. Produzido pelo CPC-UNE e pelo Movimento de Cultura Popular de
Pernambuco, o filme seria realizado nos próprios onde a história havia
ocorrido. Dois anos depois estava tudo pronto para o início das filmagens... Ma
sem 15 de janeiro de 1964 houve um conflito perto de Sapé envolvendo policiais
e empregados de uma usina, de um lado e camponeses, do outro. Onze pessoas
morreram no conflito. A região foi tomada pela Polícia Militar da Paraíba,
tornando impossível a filmagem no local. Na emergência fui obrigado a
transferir as locações e encontrei o lugar ideal em Pernambuco, no Engenho
Galileia, onde havia nascido a primeira Liga Camponesa, em1955.
Uma Opinião:
Talvez esse tipo de procedimento (de o diretor conduzir a trama do
documentário através das entrevistas) tenha
começado em "Cabra Marcado para Morrer", quando o cineasta retorna,
em 1981, à cidadezinha que tivera de abandonar às pressas em 1964, quando
realizava um filme sobre as Ligas Camponesas. Ali é essencial o contato com as
pessoas, a maneira como aos poucos se retoma a confiança de pessoas perseguidas
durante a ditadura. É essencial, mas não é central. Central é o tempo, as
mudanças que afetaram essas pessoas e o vilarejo quase fantasma, onde em outros
tempos se forjava a rebelião camponesa. Isto é que o filme consegue captar: a
passagem do tempo, seus traços marcados nos rostos, nas atitudes, no próprio
medo.
(Jean-Claude
Bernadet, Folha Conta 100 Anos de Cinema, ed. Imago -1995)




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