AULA 6 - Pro Dia Nascer Feliz
Brasil – 2006
Direção de João
Jardim - 88 min.
O Diretor
João Jardim (Rio de Janeiro, 1964) Formou-se em jornalismo pela Faculdade da Cidade e cinema na Universidade de Nova York. Trabalhou na TV Globo, onde editou as minisséries Engraçadinha, Memorial de Maria Moura e Agosto.
Foi assistente de direção em longas-metragens de Murilo Salles e Cacá Diegues. Dirigiu comerciais para alguns dos
principais anunciantes
do Brasil. Seu primeiro longa metragem, Janela da Alma, sobre a cegueira, ganhou diversos prêmios nacionais e
internacionais e levou mais de 140 mil pessoas aos cinemas em 2002 . Pro
Dia Nascer Feliz, seu segundo longa, é um documentário sobre as adversas
situações que o adolescente brasileiro enfrenta dentro da escola. Além disso,
ainda dirigiu documentário Lixo Extraordinário (indicado ao
Oscar de melhor documentário, em 2011). Em 2014 lançou o longa Getúlio, sobre os últimos dias do presidente
brasileiro.
Trama e Linguagem
O autor faz uma reflexão sobre a educação no Brasil,
costurando os depoimentos de alunos, professores e funcionários de 4 escolas
públicas e 1 privada. Assim, vemos inicialmente as precárias condições de uma
escola na cidade de Manari, em Pernambuco, depois somos transportados para uma
escola em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, em seguida vamos para
Itaquaquecetuba, na região metropolitana de São Paulo, outra escola pública da
periferia da capital paulista e por fim paramos numa escola de elite da cidade de
São Paulo.
Desde o sertão de Pernambuco, o autor
entrevista estudantes e professores e descreve os ambientes e rituais
escolares. Assim consegue aproximar meninos e meninas da elite paulista com
estudantes das escolas públicas nas periferias das grandes cidades brasileiras.
O sofrimento, a solidão e os sonhos de jovens brasileiros são narrados por suas
próprias vozes. O espectador não sai desse filme imune à crueza da vida
desses adolescentes, e dos professores que se dedicam à difícil tarefa de educar
os jovens brasileiros com os meios precários de que dispõem e inseridos na
cultura da repetência. João Jardim expõe, especialmente, um dos cerimoniais
mais chocantes da escola, o famoso conselho de classe, que nunca havia sido
filmado, e mostra a difícil escolha que cabe aos professores em seu papel de
mestres.
As dificuldades específicas que vão desde a falta de
transporte para os alunos chegarem à escola, as instalações semidestruídas, a
violência, as pressões familiares. Depoimentos às vezes otimistas mas, na maior
parte dos casos, muito pessimistas sobre a escola trazem à tona uma amostragem
muito rica sobre o atual panorama do ensino no Brasil. O abismo entre a escola
organizada e o descaso total com a educação mostrada neste documentário é uma
grande evidência dos contrastes sociais e econômicos vividos no Brasil.
Uma fala do filme
O depoimento
abaixo é um desabafo da prof. Denise, da Escola Estadual Dias Lima na cidade de
Inajá em Pernambuco. Demonstra a situação do desinteresse geral que tem hoje a escola
no Brasil:
(clique acima e assista trecho do filme citado nesta parte)
Eu acho que eles vem como se fosse
para extravasar. Alguns vemos para aparecer, para se mostrar. As meninas se
arrumam como quem vai para um baile, ficam nos corredores paquerando, muitas
nem entram. O pouco que se tem são as aulas e assim mesmo eles não querem.
Então a gente se desestimula... Hoje faltam onze professores aqui. Dia de sexta
é furada aqui. Se não mandam substituto não tem aula. Eles pensam assim: os
alunos não estão interessados, para que eu vou me interessar.
Uma opinião
Jardim escapa do maniqueísmo ao
contrapor escolas da periferia ao Colégio Santa Cruz, um dos mais tradicionais
de São Paulo. Os problemas existem lá também -em níveis existenciais tão
soturnos quanto o das periferias. "São dois mundos diferentes", diz uma
aluna do Santa Cruz. "Não são dois mundos", rebate outra. "O
problema é este: é o mesmo mundo."
Reinventar a escola, como sugere a professora Suzana, é tarefa que exige bem mais do que discursos em palanques. Há algo de muito errado quando os 88 minutos de duração de "Pro Dia Nascer Feliz" fazem mais pelo debate público sobre a educação do que três meses de campanha eleitoral, com seus discursos fora de foco.
Reinventar a escola, como sugere a professora Suzana, é tarefa que exige bem mais do que discursos em palanques. Há algo de muito errado quando os 88 minutos de duração de "Pro Dia Nascer Feliz" fazem mais pelo debate público sobre a educação do que três meses de campanha eleitoral, com seus discursos fora de foco.
(Plínio
Fraga, Estado de São Paulo 26/09/2006)







