quarta-feira, 15 de outubro de 2014

                      AULA 6 - Pro Dia Nascer Feliz

















Brasil – 2006
Direção de João Jardim - 88 min.



O Diretor

João Jardim (Rio de Janeiro, 1964) Formou-se em jornalismo  pela Faculdade da Cidade e cinema na Universidade de Nova York. Trabalhou na TV Globo, onde editou as minisséries Engraçadinha, Memorial de Maria Moura e Agosto. Foi assistente de direção em longas-metragens de Murilo Salles e Cacá Diegues. Dirigiu comerciais para alguns dos
principais anunciantes do Brasil. Seu primeiro longa metragem, Janela da Alma, sobre a cegueira, ganhou diversos prêmios nacionais e internacionais e levou mais de 140 mil pessoas aos cinemas em 2002 . Pro Dia Nascer Feliz, seu segundo longa, é um documentário sobre as adversas situações que o adolescente brasileiro enfrenta dentro da escola. Além disso, ainda dirigiu documentário Lixo Extraordinário (indicado ao Oscar de melhor documentário, em 2011). Em 2014 lançou o longa Getúlio, sobre os últimos dias do presidente brasileiro.

Trama e Linguagem 

O autor faz uma reflexão sobre a educação no Brasil, costurando os depoimentos de alunos, professores e funcionários de 4 escolas públicas e 1 privada. Assim, vemos inicialmente as precárias condições de uma escola na cidade de Manari, em Pernambuco, depois somos transportados para uma escola em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, em seguida vamos para Itaquaquecetuba, na região metropolitana de São Paulo, outra escola pública da periferia da capital paulista e por fim paramos numa escola de elite da cidade de São Paulo.


Desde o sertão de Pernambuco, o autor entrevista estudantes e professores e descreve os ambientes e rituais escolares. Assim consegue aproximar meninos e meninas da elite paulista com estudantes das escolas públicas nas periferias das grandes cidades brasileiras. O sofrimento, a solidão e os sonhos de jovens brasileiros são narrados por suas próprias vozes.  O espectador não sai desse filme imune à crueza da vida desses adolescentes, e dos professores que se dedicam à difícil tarefa de educar os jovens brasileiros com os meios precários de que dispõem e inseridos na cultura da repetência. João Jardim expõe, especialmente, um dos cerimoniais mais chocantes da escola, o famoso conselho de classe, que nunca havia sido filmado, e mostra a difícil escolha que cabe aos professores em seu papel de mestres.
As dificuldades específicas que vão desde a falta de transporte para os alunos chegarem à escola, as instalações semidestruídas, a violência, as pressões familiares. Depoimentos às vezes otimistas mas, na maior parte dos casos, muito pessimistas sobre a escola trazem à tona uma amostragem muito rica sobre o atual panorama do ensino no Brasil. O abismo entre a escola organizada e o descaso total com a educação mostrada neste documentário é uma grande evidência dos contrastes sociais e econômicos vividos no Brasil.




Uma fala do filme

O depoimento abaixo é um desabafo da prof. Denise, da Escola Estadual Dias Lima na cidade de Inajá em Pernambuco. Demonstra a situação do desinteresse geral que tem hoje a escola no Brasil:

(clique acima e assista trecho do filme citado nesta parte)

Eu acho que eles vem como se fosse para extravasar. Alguns vemos para aparecer, para se mostrar. As meninas se arrumam como quem vai para um baile, ficam nos corredores paquerando, muitas nem entram. O pouco que se tem são as aulas e assim mesmo eles não querem. Então a gente se desestimula... Hoje faltam onze professores aqui. Dia de sexta é furada aqui. Se não mandam substituto não tem aula. Eles pensam assim: os alunos não estão interessados, para que eu vou me interessar.



Uma opinião

Jardim escapa do maniqueísmo ao contrapor escolas da periferia ao Colégio Santa Cruz, um dos mais tradicionais de São Paulo. Os problemas existem lá também -em níveis existenciais tão soturnos quanto o das periferias. "São dois mundos diferentes", diz uma aluna do Santa Cruz. "Não são dois mundos", rebate outra. "O problema é este: é o mesmo mundo."
Reinventar a escola, como sugere a professora Suzana, é tarefa que exige bem mais do que discursos em palanques. Há algo de muito errado quando os 88 minutos de duração de "Pro Dia Nascer Feliz" fazem mais pelo debate público sobre a educação do que três meses de campanha eleitoral, com seus discursos fora de foco.
(Plínio Fraga, Estado de São Paulo 26/09/2006)


          AULA 5 - Cabra Marcado para Morrer





















Brasil -1987
Direção de Eduardo Coutinho - 119 min.






O Diretor 

Eduardo Coutinho (1933 – 2014), um dos mais importantes nomes do documentário brasileiro, teve uma formação que passou pelo cinema, teatro e jornalismo, tendo inclusive cursado a faculdade de Direito em SP. Seu trabalho é
caracterizado pela profundidade e sensibilidade com que aborda problemas e aspirações da grande maioria marginalizada, seja em favelas, no sertão ou na boca do lixo. Dentre seus principais filmes estão Santo Forte (1999), Edifício Master (2002) e Jogo de Cena (2007). Morreu tragicamente em fevereiro de 2014, assassinato a facadas pelo próprio filho.


Trama e Linguagem

Coutinho nasceu em São Paulo e chegou a estudar na faculdade de Direito do largo S.Francisco, nos anos 50 mas não concluiu, ligando-se ao teatro e ao cinema ainda na juventude. Na década seguinte, integrou-se ao Centro Popular de Cultura da União dos Estudantes e começou a trabalhar no projeto que seria "Cabra Marcado Para Morrer".
Quando o projeto começou, no início dos anos 1960, pensava-se numa obra de ficção, em que camponeses reencenariam uma história real, a do líder camponês João Pedro Teixeira, fundador da Liga Camponesa de Sapé (PB), assassinado a mando de latifundiários em 1962. O elenco seria composto por atores amadores, habitantes daquela comunidade e a viúva de Teixeira, Elisabete, seria interpretada por ela mesma. 



Quando finalmente o cineasta conseguiu os recursos para a filmagem, produzida pelo Centro Popular de Cultura da UNE e o Movimento de Cultura Popular (PE), já era 1964. No meio das gravações, o projeto foi interrompido pela ditadura. Imagens e câmeras foram perdidas, membros da equipe foram presos ou tiveram de fugir, mas uma parte do material filmado foi preservado.
Forçado a abandonar o projeto, Coutinho passou a integrar a equipe do programa "Globo Repórter", da Rede Globo. Lá descobriu a vocação para o documentário, deixando para trás os filmes de ficção que, anos depois, renegou como parte desinteressante de sua filmografia.
Nos anos 1980, após a abertura política, Coutinho retomou o projeto de "Cabra Marcado para Morrer", combinando diferentes tempos narrativos: as imagens restantes do filme inicial de 1964 e novas gravações com os personagens, que reencontrou anos depois. O resultado foi um dos melhores e mais importantes documentários da história do País.

Este filme foi realizado em dois momento distintos. A primeira parte, com imagens ainda em preto e branco, começou a ser feita em 1964, quando através de depoimentos o diretor queria contar a história de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas, assassinado dois anos antes.
Em meio às filmagens, ocorreu o golpe militar de março de 1964 e o início da ditadura. Forças policiais cercaram a vila de Sepé (PB) e prenderam toda a equipe de filmagens. Coutinho foi acusado de comunismo e teve de interromper o projeto por mais de vinte anos. Em 1986, voltou ao sertão nordestino e localizou diversos depoentes na primeira do filme, inclusive a a viúva do líder camponês que tinha vivido na clandestinidade durante o Regime Militar (1964-85). Nas duas partes, a questão da terra e a pobreza dos sertanejos nordestinos são os principais temas da obra.





Uma fala do filme

Mostrando as imagens da década de 60, o diretor narra como surgiu a ideia para o seu documentário:

(clique  acima e assista os primeiros minutos do filme,que contém a fala citada). 

Aumento do foro (aluguel), trabalho obrigatório e sem pagamento, despejo sem indenização pelas benfeitorias e lavouras, uso da violênciapelosgrandes proprietários de terras.Nalutacontra tudo isso JoãoPedro forjou a unidade dos camponeses da região. Foi nesse dia que nasceu a ideia de umfilmedelonga-metragem sobrea vida de João Pedro Teixeira que se chamaria “Cabra Marcado para Morrer”. Produzido pelo CPC-UNE e pelo Movimento de Cultura Popular de Pernambuco, o filme seria realizado nos próprios onde a história havia ocorrido. Dois anos depois estava tudo pronto para o início das filmagens... Ma sem 15 de janeiro de 1964 houve um conflito perto de Sapé envolvendo policiais e empregados de uma usina, de um lado e camponeses, do outro. Onze pessoas morreram no conflito. A região foi tomada pela Polícia Militar da Paraíba, tornando impossível a filmagem no local. Na emergência fui obrigado a transferir as locações e encontrei o lugar ideal em Pernambuco, no Engenho Galileia, onde havia nascido a primeira Liga Camponesa, em1955.



Uma Opinião:

Talvez esse tipo de procedimento (de o diretor conduzir a trama do documentário através das entrevistas) tenha começado em "Cabra Marcado para Morrer", quando o cineasta retorna, em 1981, à cidadezinha que tivera de abandonar às pressas em 1964, quando realizava um filme sobre as Ligas Camponesas. Ali é essencial o contato com as pessoas, a maneira como aos poucos se retoma a confiança de pessoas perseguidas durante a ditadura. É essencial, mas não é central. Central é o tempo, as mudanças que afetaram essas pessoas e o vilarejo quase fantasma, onde em outros tempos se forjava a rebelião camponesa. Isto é que o filme consegue captar: a passagem do tempo, seus traços marcados nos rostos, nas atitudes, no próprio medo.

(Jean-Claude Bernadet, Folha Conta 100 Anos de Cinema, ed. Imago -1995)